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Entrevista com Sophie Grig, membro da Survival International

“Mobilizar a opinião pública e informar as pessoas sobre os riscos que a vida dos povos não contatados corre pode ajudar a mudar as políticas no campo.”

Sophie Grig é diretora de campanhas para a Ásia e o Pacífico na Survival International. Desde o final da década de 1990, ela lidera campanhas pelos direitos de povos não contatados e recém-contatados nas Ilhas Andamão, incluindo os Sentineleses e os Ang (anteriormente conhecidos como Jarawa). Grande parte do seu trabalho agora se concentra no povo não contatado Hongana Manyawa, em Halmahera, Indonésia, e no povo Shompen na Ilha de Grande Nicobar, Índia. A Survival atua globalmente na defesa dos direitos dos povos não contatados, o que proporciona a Sophie uma perspectiva comparativa sobre como as estratégias, narrativas e ferramentas legais diferem de acordo com o contexto. Conversou com Rollo Romig sobre o que torna as campanhas públicas eficazes, como lidar com governos não receptivos e o que a reunião na Indonésia revelou sobre o potencial de um movimento verdadeiramente global.

Nome:

Sophie Grig

Organização:

Survival International

País: 

Reino Unido

Entrevistador/a:

Priscila Pacheco

Áreas de ação: 

Opinião Pública, Campanhas e Mobilização, Impactos das Mudanças Climáticas nos PIACI, Marcos e Ferramentas Legais, PIACI como Categoria Global

Descarregue a entrevista completa em PDF.

Sobre o que está funcionando



Campanhas públicas e a mobilização da opinião geral estão entre as ferramentas mais eficazes.



Sophie descreve a abordagem central da Survival: mobilizar o apoio público por meio de mensagens claras e ressonantes, e usar essa pressão para mudar o comportamento de governos e empresas. Quando a Survival começou a fazer campanha pelos Sentineleses, o governo indiano estava tentando contatá-los à força. A pressão pública sustentada contribuiu para uma mudança fundamental: o governo agora opera com o princípio de "olhos abertos, mãos longe" (observar sem interferir). É uma demonstração concreta de que as campanhas públicas podem mudar a política na prática.



Para o público em geral, a narrativa mais eficaz gira em torno da escolha: a ideia de que os povos não contatados escolheram deliberadamente o seu modo de vida, e que essa escolha merece o mesmo respeito que qualquer outra. Conectar essa escolha à devastação que se segue ao contato forçado — doença, morte, destruição de terras — torna os riscos envolvidos algo visceral e pessoal. Para legisladores e empresas, os argumentos legais são importantes, mas também o risco de imagem. Ser cúmplice na destruição de um povo não contatado é algo do qual nenhuma empresa ou governo consegue se recuperar facilmente, e deixar essa consequência clara é uma das ferramentas mais eficazes da Survival.



Encontrar a alavanca certa importa mais do que encontrar o argumento certo.



Na América Latina, as organizações podem apresentar casos à Comissão Interamericana, uma alavanca legal formal que não existe na Ásia ou no Pacífico. Na Indonésia e na Índia, são necessárias abordagens diferentes. A Survival trabalhou com especialistas em genocídio para escrever diretamente ao Presidente da Índia sobre a situação dos Shompen, gerando significativa atenção internacional e condenação do megaprojeto planejado. Em lugares como a Indonésia, onde o governo não é receptivo à pressão internacional, é necessário encontrar outras alavancas, como pressionar os fabricantes de veículos elétricos que o governo está buscando atrair.



Sobre a intersecção entre o clima e os direitos dos PIACI



Os povos não contatados enfrentam as mudanças climáticas de todos os lados: como vítimas dos seus efeitos, dos seus impulsionadores e de suas chamadas soluções.



Os povos não contatados são diretamente afetados pelas mudanças climáticas através da alteração dos padrões de chuva, secas e incêndios florestais, mas eles também estão sendo prejudicados por algumas das supostas soluções. O exemplo mais claro são os Hongana Manyawa, cujo território está sendo destruído pela mineração de níquel que é impulsionada pelo esforço da Indonésia para abastecer o mercado global de veículos elétricos, uma indústria apresentada como uma solução climática, mas que está devastando os territórios de povos não contatados no processo. Tentar consumir a nossa saída da crise climática não é viável, observa Sophie, e quando essa abordagem destrói os territórios de povos não contatados, ela causa exatamente o mesmo dano que afirma prevenir.



Sobre a consolidação dos PIACI como uma categoria global



O problema é global, mas as ferramentas, os marcos regulatórios e os níveis de compreensão ainda não são.



A situação subjacente é a mesma para os povos não contatados na Colômbia, Indonésia e Índia. O que difere é a infraestrutura disponível para lidar com isso. A América Latina possui legislação, departamentos governamentais dedicados e a Comissão Interamericana. A Indonésia não possui nada disso. A lacuna entre a realidade global do problema e a concentração regional de ferramentas para enfrentá-lo é um dos desafios estruturais mais significativos que a área enfrenta.



Parte de fechar essa lacuna é chegar a um acordo sobre como falar a respeito. A Survival usa "não contatados" (uncontacted) porque o termo se comunica mais diretamente com o público em geral, não porque seja necessariamente mais preciso do que outros termos. Os debates de definição não devem se tornar um obstáculo para a comunicação ou para a construção da coalizão global que esse problema exige.



Sobre a incidência adaptativa



Quando ferramentas legais formais não estão disponíveis, uma incidência eficaz significa encontrar a alavanca certa para o contexto.



Mesmo dentro de governos insensíveis à causa, frequentemente existem indivíduos simpáticos a ela, e encontrar e fazer lobby com essas pessoas é uma estratégia importante. Onde existem marcos legais, deve-se desafiar os governos usando suas próprias leis. Onde eles não existem, use os instrumentos internacionais, a pressão pública e o risco à reputação da empresa. O princípio subjacente é o mesmo em todo lugar: identifique os pontos de pressão e concentre os seus esforços lá.

Pessoas que promovem soluções

Líderes indígenas, organizações e especialistas que atuam tanto no território quanto em nível global para proteger os PIACI.

Marcos Glauser

IA Iniciativa Amotocodie

Paraguay

Surti Handayani

AMAN

Indonesia

Dorince Mehue

AMAN

Indonesia

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