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Entrevista com Hilton Silva do Nascimento, membro do CTI - GTI PIACI

"Quando um financiador chega, as ações que ele realiza no país estão alinhadas e em consonância com a estratégia política da sociedade civil para os próximos 20 ou 30 anos do futuro desse país?"

Hilton Silva do Nascimento é ecólogo, antropólogo e defensor dos direitos indígenas. Trabalha com povos indígenas desde 1992 e, especificamente, na Terra Indígena Vale do Javari desde 2000. Possui mestrado em ecologia aplicada e conservação e atualmente faz doutorado em antropologia no Museu Nacional do Brasil. Trabalha para o CTI (Centro de Trabalho Indigenista), uma organização de direitos indígenas que apoia a autonomia e os direitos territoriais indígenas em todos os biomas brasileiros, e é membro do GTI-PIACI (Grupo de Trabalho Internacional sobre Povos Indígenas em Isolamento e Contato Inicial). Ele conversou com Priscila Pacheco sobre a colaboração transfronteiriça, as barreiras estruturais que o trabalho pelos direitos indígenas enfrenta na fronteira entre o Brasil e o Peru, e os equívocos dos financiadores sobre a luta a longo prazo. Participou da entrevista via Starlink de uma aldeia Korubo, um povo de contato recente, no coração da Amazônia.

Nome:

Hilton Silva do Nascimento

Organização:

CTI / GTI PIACI

País: 

Brasil

Entrevistador/a:

Priscila Pacheco

Áreas de ação: 

Liderança Comunitária, Colaboração Transfronteiriça, Indústrias Extrativistas, Marcos Climáticos, Financiamento a Longo Prazo

Descarregue a entrevista completa em PDF.

Sobre o que está funcionando



As organizações mais eficazes seguem a liderança da comunidade, e não a sua própria agenda.



Uma das constantes críticas de Hilton ao longo da entrevista é a resistência a narrativas que priorizam o heroísmo individual ou organizacional em detrimento do processo coletivo. Ele estende essa crítica à cultura mais ampla do trabalho de desenvolvimento internacional: "Sempre que se trata desse mito do herói, ele é sempre branco e sempre homem". Para Hilton, as organizações mais eficazes são aquelas que subordinam sua própria agenda às prioridades das comunidades com as quais trabalham, medindo o sucesso não pelo que podem reivindicar, mas pelo que os processos liderados por comunidades locais são capazes de alcançar.



Sobre colaboração transfronteiriça



O trabalho transfronteiriço sustentado exige um coletivo.



O CTI possui quase 20 anos de experiência na construção de alianças com organizações indígenas, ambientalistas e pró-indígenas no lado peruano da fronteira entre Brasil e Peru, compartilhando informações técnicas, coordenando ações de advocacy e facilitando encontros binacionais. Um dos exemplos mais significativos foi o apoio da CTI aos encontros binacionais Matsés — reuniões do povo Matsé , uma comunidade dividida pela fronteira entre Brasil e Peru, que se uniram para resistir à exploração de petróleo em seus territórios. Ao longo de vários anos, essa pressão constante contribuiu para a retirada da empresa petrolífera canadense Pacific Stratus da região do Alto Jaquirana. Hilton faz questão de ressaltar que o CTI nunca foi o protagonista. Em vez disso, as organizações indígenas peruanas colaboraram com diversos atores.



Sobre Barreiras



As indústrias extrativas são coordenadas, bem financiadas e cada vez mais interligadas com o crime organizado.



Um tema recorrente no relato de Hilton sobre o trabalho transfronteiriço é a escala e a coordenação das forças que atuam contra os direitos territoriais indígenas. No lado peruano, os interesses da indústria madeireira e petrolífera mantêm um poderoso lobby que, há anos, impede o reconhecimento de reservas indígenas, como são conhecidas no Peru as terras indígenas para povos indígenas isolados, incluindo a Reserva Indígena Yavarí -Mirim, que permanece sem reconhecimento. Mas a preocupação de Hilton vai além das indústrias extrativas tradicionais. Ele descreve uma convergência preocupante entre crimes ambientais e o crime organizado em geral, com a extração ilegal de madeira, a mineração e o narcotráfico operando cada vez mais como partes da mesma economia criminosa transnacional. O crime organizado já é transnacional, afirma ele, enquanto a sociedade civil ainda tem muita dificuldade para se organizar dessa forma. Para Hilton, essa assimetria é um desafio urgente e subestimado para o trabalho em prol dos direitos indígenas: a oposição é organizada, bem financiada e pensa estrategicamente, enquanto a sociedade civil permanece fragmentada e com atuação local.



A fronteira é assimétrica.



A barreira mais imediata ao trabalho de proteção transfronteiriça reside nas profundas diferenças entre os contextos de cada lado da fronteira Brasil-Peru. No Brasil, os territórios são amplamente demarcados e os povos indígenas têm acesso a serviços de saúde e proteção social. No Peru, as comunidades indígenas lutam por direitos muito mais básicos — reconhecimento territorial, saúde, educação — e são muito mais vulneráveis à pressão econômica das indústrias extrativistas. Essa assimetria torna genuinamente difícil alinhar agendas de ambos os lados da fronteira, quanto mais construir uma estratégia compartilhada de longo prazo.



Na interseção entre o clima e os direitos PIACI



Os marcos climáticos podem abrir portas para os direitos PIACI, mas devem ser abordados com cautela.



Hilton não descarta o potencial dos mecanismos de compensação climática e de carbono para beneficiar os territórios indígenas. Mas ele levanta uma preocupação: esses mecanismos também atraem atores externos mais interessados em acessar recursos do que no bem-estar dos povos indígenas. "Isso comercializa a situação e atrai empresas que, na maioria das vezes, não estão interessadas em melhorar a vida dessas pessoas e não estão preparadas para lidar com suas realidades e projetos de futuro", afirma.

Ele descreve um padrão que já testemunhou na região fronteiriça: atores externos chegam com a suposição de que sabem do que as comunidades indígenas precisam, usando a linguagem climática como disfarce para interesses extrativistas. Para Hilton, o risco não está na própria abordagem climática, mas na dinâmica de poder que ela pode gerar. É essencial que qualquer iniciativa ligada ao clima seja genuinamente impulsionada por prioridades indígenas, e não por agendas externas.



No cenário de financiamento



Os financiadores precisam de uma visão de longo prazo, não apenas de um ciclo de projeto.



Hilton aponta uma falha estratégica entre as instituições financiadoras: a incapacidade de pensar além dos prazos de projetos individuais, em direção a uma visão de longo prazo para a sociedade civil na região. "As ações que elas tomam no país estão alinhadas e coincidem com a estratégia política da sociedade civil para os próximos 20 a 30 anos do futuro do país?", questiona. Ele argumenta que a extrema direita já está pensando nesses termos, planejando para 2030 e além, enquanto financiadores e a sociedade civil permanecem orientados para ciclos de projetos curtos. Para Hilton, a lição dos anos Bolsonaro é que todo o ecossistema da sociedade civil, organizações indígenas e não indígenas, precisa ser fortalecido e apoiado em conjunto a longo prazo.

Pessoas que promovem soluções

Líderes indígenas, organizações e especialistas que atuam tanto no território quanto em nível global para proteger os PIACI.

Lenny Patty

AMAN

Indonesia

Hilton Silva do Nascimento

CTI / GTI PIACI

Brasil

Antenor Vaz

GTI PIACI

Brasil

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