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Entrevista com Antenor Vaz, membro do GTI PIACI

“A floresta é a farmácia deles, o supermercado deles, o templo deles”

Antenor Vaz é uma voz proeminente dentro do GTI-PIACI — o Grupo de Trabalho Internacional de Povos Indígenas em Isolamento e Contato Inicial. Ao longo de quase quatro décadas, Vaz trabalhou com a FUNAI (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), órgão do governo brasileiro dedicado aos assuntos indígenas, e suas pesquisas o consolidaram como especialista no assunto e na região, na análise e defesa dos territórios dos PIACI na Amazônia, Cerrado e no Grande Chaco. Ele conversou com Priscila Pacheco sobre a metodologia de não contato que ajudou a desenvolver, as barreiras estruturais que ameaçam os povos isolados na América do Sul e o que será necessário para levar os direitos dos PIACI ao cenário global.

Nome:

Antenor Vaz

Organização:

GTI PIACI

País: 

Brasil

Entrevistador/a:

Priscila Pacheco

Áreas de ação: 

Metodologia, Barreiras Estruturais, Direitos dos PIACI e Mudanças Climáticas, Construção de Alianças Efetivas

Descarregue a entrevista completa em PDF.

Sobre a metodologia



A proteção de povos isolados depende da preservação dos ecossistemas, e não do estabelecimento de contato.



Vaz desenvolveu uma metodologia baseada em um princípio fundamental: a proteção de povos indígenas em isolamento e em contato inicial exige uma política rigorosa de não contato. Antes de 1988, a abordagem do Brasil em relação aos povos isolados centrava-se no estabelecimento de contato. Os resultados foram devastadores, com os grupos contatados perdendo, em média, metade de suas populações, devido ao contágio de doenças infectocontagiosas. Vaz contribuiu para mudar essa abordagem ao desenvolver uma metodologia de não contato que tem norteado as políticas de proteção no Brasil.



Em vez de buscar diretamente povos isolados, a metodologia de Vaz se baseia em expedições de campo para procurar vestígios deixados por essas comunidades — aldeias abandonadas, terras desmatadas, áreas de caça e pesca, cultura material — utilizando métodos antropológicos para construir um retrato de quem são essas comunidades. Por exemplo, após dois anos em campo ao redor do território indígena Massaco, Vaz e sua equipe descobriram o que eles comiam, onde caçavam e pescavam, como construíam suas cabanas e de onde obtinham os materiais para criar seus pertences: arcos e flechas, panelas e utensílios de cozinha, redes e decorações. A primeira aplicação dessa abordagem levou à demarcação da Terra Indígena Massaco no Brasil, o primeiro território na história do país designado exclusivamente para povos isolados — e sem uma única conversa com seus habitantes.



Sobre barreiras



A ameaça é estrutural.



O principal obstáculo à proteção dos direitos dos povos indígenas isolados e contato inicial não é a falta de conscientização, mas sim um modelo econômico e político. Todos os países sul-americanos operam sob um modelo de desenvolvimento agroextrativista voltado para a exportação, o que significa desmatamento, mineração, construção de estradas e infraestrutura energética — todas ameaças diretas aos territórios dos quais os povos isolados dependem. 


Segundo Vaz, todas as decisões políticas e econômicas são planejadas para estimular o crescimento dessas indústrias, o que entra em conflito direto com a proteção dos povos indígenas isolados que dependem de um território equilibrado para sua subsistência. “A floresta é a farmácia deles, o supermercado, o templo espiritual”, afirma Vaz. “Portanto, não há hierarquia na preponderância dos seres humanos sobre outros seres vivos, visíveis ou invisíveis, na floresta. Na concepção dos povos indígenas, especialmente os isolados e recentemente contatados, os seres humanos são apenas mais um ingrediente neste grande cosmos em que vivemos.”

Para Vaz, o que agrava esses interesses conflitantes é que, quando não há contato direto, os governos podem fingir que esses povos não existem. E quando a existência de povos isolados é ignorada ou negada, seus direitos territoriais também podem ser negados. Financiadores e formuladores de políticas precisam entender que proteger essas comunidades significa enfrentar essa realidade política diretamente, e não contorná-la. Além disso, as organizações que buscam proteger e defender os direitos dos povos indígenas em isolamento e em contato inicial devem disseminar a conscientização sobre a existência dessas comunidades.



Na interseção entre o clima e os direitos dos PIACI



A relação entre os direitos PIACI e a resiliência climática é fundamental.



Vaz vê uma oportunidade em reformular a questão dos direitos dos Povos Indígenas Isolados e em Contato Inicial (PIACI) para além dos direitos humanos. Sua pesquisa recente documenta a existência de povos isolados em 61 Áreas Naturais Protegidas (ANPs) na América do Sul, abrangendo 65 milhões de hectares de algumas das florestas mais intactas do continente. Essas comunidades resistem à devastação da Amazônia, do Cerrado e do Chaco paraguaio há séculos, tornando-se agentes concretos de resiliência climática, e não apenas seus beneficiários. Essa reformulação é estrategicamente importante: abre portas com instituições de conservação e financiadores climáticos que podem não se engajar apenas com base nos direitos humanos. Vaz está atualmente em diálogo com a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) para explorar como as unidades de conservação em todo o mundo podem levar em conta a presença de povos isolados dentro de seus limites territoriais.



Sobre a expansão global



A PIACI não pode se tornar uma causa global sem antes se tornar uma conversa global.



Embora a ONU. a OEA  e OTCA tenham adotado marcos para os direitos dos povos indígenas, indígenas e de outras minorias étnicas (PIACI), levar a questão ao Conselho de Direitos Humanos exige que ela seja estabelecida como uma preocupação universal, e não apenas regional da América do Sul. Organismos multilaterais estão buscando ativamente o apoio do Grupo de Trabalho GTI-PIACI para fundamentar essa argumentação — mas isso requer um diálogo genuíno entre continentes e evidências de que o isolamento é uma condição que existe além da bacia amazônica. Um intercâmbio recente na Indonésia reuniu organizações e ativistas que trabalham pelos direitos dos PIACI na América do Sul e no arquipélago indonésio, o que representou um primeiro passo importante para expandir a discussão para outros continentes.



Sobre a construção de alianças eficazes



Chegar com as respostas não é o mesmo que chegar pronto para colaborar.



Vaz admite abertamente que o intercâmbio na Indonésia revelou o que será necessário para uma colaboração inter-regional intencional mais aprofundada: mais escuta, abertura a outras ideias e experiências, e consciência de quaisquer estruturas de poder subjacentes que orientem as interações. As estruturas mais desenvolvidas da América do Sul e o histórico mais longo de trabalho de campo podem facilmente levar ao que Vaz chama de "postura colonialista" — apresentando a experiência como modelo, em vez de como uma contribuição para uma conversa compartilhada. Uma parceria genuína exige que comecemos pela escuta: quais são os problemas que as contrapartes enfrentam e o que elas realmente desejam de um intercâmbio? Também exige um investimento sério para garantir que as contrapartes possam se entender e construir um vocabulário comum. Categorias como "isolado" ou "contato inicial" carregam significados legais, culturais e antropológicos diferentes, dependendo de onde você está no mundo — e presumir o contrário encerra o diálogo antes mesmo de começar.

Pessoas que promovem soluções

Líderes indígenas, organizações e especialistas que atuam tanto no território quanto em nível global para proteger os PIACI.

Marcos Glauser

IA Iniciativa Amotocodie

Paraguay

Surti Handayani

AMAN

Indonesia

Dorince Mehue

AMAN

Indonesia

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